Antes de começar

Hoje a aula fala de perda.

Se em algum momento ficar pesado, você pode sair da sala, sem pedir licença e sem explicar. A equipe socioemocional está por perto hoje.

Ninguém vai precisar contar nada pessoal.

Para conversar

O que é seu de um jeito que ninguém consegue tirar?

Viena, Áustria, sob o domínio nazista · 1941

Viktor Frankl tinha um visto para os Estados Unidos, e ficou.

Os pais
Idosos, dependiam dele. Ele não quis deixá-los sozinhos.
Tilly
Enfermeira do hospital onde ele trabalhava. Casaram no fim de 1941.
Um manuscrito
O primeiro livro dele, sobre tratar pessoas pelo sentido da vida. Ia com ele para todo lado.

Frankl era psiquiatra, judeu, e tinha 36 anos. Por volta de 1930, organizou atendimento gratuito para estudantes de Viena na época da entrega dos boletins, quando mais alunos entravam em crise.

De 1942 a 1945

Três anos em quatro campos de concentração nazistas.

Theresienstadt · fevereiro de 1943 · o pai de Frankl, Gabriel, 81 anos, estava morrendo

“Perguntei: ‘Sente dor?’ ‘Não.’ ‘Quer alguma coisa?’ ‘Não.’ ‘Quer me dizer alguma coisa?’ ‘Não.’ Eu o beijei e saí. Sabia que não o veria vivo de novo. Mas tive o sentimento mais bonito que se pode imaginar: eu tinha feito o que podia.”

Frankl, relembrando a cena anos depois · tradução livre

Auschwitz · outubro de 1944

Na chegada, os presos tinham de entregar tudo. Frankl tentou salvar o manuscrito:

“Olhe, isto é o manuscrito de um livro científico. Preciso guardá-lo a qualquer custo. É o trabalho da minha vida.”

A resposta de um prisioneiro antigo foi um palavrão. “Naquele momento”, escreveu Frankl, “risquei toda a minha vida anterior.”

Frankl, Em busca de sentido, parte I · tradução livre

Auschwitz · outubro de 1944

No bolso, uma única página.

O manuscrito ficou para trás. Frankl recebeu o casaco de um homem morto na chegada e, no bolso, achou uma página de um livro de orações com o Shemá Israel, “Ouve, Israel”, a oração central do judaísmo.

“Como entender essa coincidência senão como um desafio para viver os meus pensamentos, em vez de só pô-los no papel?”

Frankl, Em busca de sentido, parte II · tradução livre

Madrugada de inverno · a caminho do trabalho forçado, Frankl pensa na mulher, Tilly

“O amor é, de certa forma, o bem último e supremo que pode ser alcançado pela existência humana. (…) A redenção pelo amor e no amor!”

“Eu não sabia, nem poderia ou precisaria saber, se a pessoa amada estava viva.”

Frankl, Em busca de sentido, Vozes, trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline

Uma jovem presa que sabia que ia morrer nos próximos dias

Da cama, ela via pela janela um galho de castanheira.

“Esta árvore é a única amiga que tenho na minha solidão. Eu converso com ela.”

Frankl perguntou se a árvore respondia. “Sim.” E o que ela dizia?

“Eu estou aqui. Eu estou aqui. Eu sou a vida, a vida eterna.”

Frankl, Em busca de sentido, parte I · tradução livre

Türkheim · março de 1945 · doente de tifo, uma infecção que matava muitos presos

Frankl reescreveu o livro perdido em pedacinhos de papel.

“Tenho certeza de que essa reconstrução, nos barracões escuros, me ajudou a vencer o perigo de um colapso.”

Frankl, Em busca de sentido, parte II · tradução livre

27 de abril de 1945 · o campo é libertado
Para conversar

O que vocês imaginam que ele sentiu ao voltar para Viena?

Viena · 14 de setembro de 1945 · carta a amigos

“Estou em Viena há quatro semanas. Pouco antes de sair de Munique, soube que minha mãe foi mandada para Auschwitz uma semana depois de mim. E eu mal tinha chegado a Viena quando me disseram que minha mulher também está morta.”

Viktor Frankl · tradução livre da edição americana das cartas

A mãe, o pai, o irmão e Tilly. Da família, só a irmã sobreviveu.

Se hoje isso toca em algo seu: equipe socioemocional NewWay · CVV, apoio emocional por telefone: 188, 24 h
A mesma carta · sobre o casamento com Tilly

“O que vivemos não pode ser desfeito. Foi. Mas esse ter-sido é talvez a forma mais segura de ser.”

“Vejo cada vez mais que a vida tem tanto sentido que, no sofrimento e até no fracasso, ainda deve haver sentido.”

Frankl, carta de 14 de setembro de 1945 · tradução livre

Se hoje isso toca em algo seu: equipe socioemocional NewWay · CVV, apoio emocional por telefone: 188, 24 h
Frankl, Em busca de sentido, parte II

Duas pessoas arrancam a mesma folha do calendário.

Uma vê o bloco afinar, com medo. A outra escreve no verso o que viveu naquele dia e guarda junto das anteriores.

Para Frankl, o passado é um celeiro cheio. Nada do que foi vivido se perde lá dentro.

Dois minutos · em silêncio · ninguém mostra

No verso da folha que você recebeu, escreva uma coisa que alguém deixou em você.

Alguém que partiu
Uma frase, um jeito, uma receita, um cheiro.
Alguém que está longe
Que se mudou, que você não vê mais.
Alguém que está perto
E ainda não sabe o que deixou em você.
Se hoje isso toca em algo seu: equipe socioemocional NewWay · CVV, apoio emocional por telefone: 188, 24 h
Viena · 1946 a 1997

Em 1946, Frankl ditou em nove dias o livro Em busca de sentido.

1946 · publica o livro reconstruído e dita, em nove dias, o relato dos campos
1947 · casa com Eleonore; nasce a filha, Gabriele
1997 · morre em Viena, aos 92 anos, depois de ensinar pelo mundo inteiro
Frankl, 1983 · posfácio de Em busca de sentido

Otimismo apesar da dor, da culpa e da morte.

Da dor
uma conquista humana.
Da culpa
a chance de mudar para melhor.
Da vida que passa
um motivo para agir com responsabilidade agora.
Esta semana

Se a pessoa da sua folha está viva, diga a ela.

Conte o que você escreveu no verso. Se ela já partiu, conte a alguém que também a conheceu.

Luto não se atravessa sozinho: equipe socioemocional NewWay · CVV, apoio emocional por telefone: 188, 24 h
Para fechar · o que a árvore dizia à jovem

“Eu estou aqui. Eu estou aqui. Eu sou a vida.”

O que foi vivido fica guardado. Ter sido também é um modo de ser, e talvez o mais seguro.

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Nota do apresentador

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